A China está conquistando um espaço cada vez mais protagonista no cenário global. Nas últimas décadas, o país asiático promoveu reformas, abriu sua economia e passou a usufruir de suas características – da disponibilidade de recursos e população até seu próprio regime político – para avançar em uma velocidade impressionante. Se há pouco tempo a China era reconhecida principalmente por sua capacidade de escala e fabricação de produtos mais baratos, hoje a visão é outra. Inovação e tecnologia de ponta já são realidade. Inclusive na área da saúde.
De 2004 a 2018, o país galgou posição de liderança em pedidos de patentes: o número de registros aumentou 12 vezes, saltando de 130 mil para 1,5 milhões no período. O salto fez a China superar os Estados Unidos como a principal fonte de pedidos de patentes internacionais em 2019.
Esse panorama é resultado de uma visão de desenvolvimento de longo prazo. Ao decidir abrir seu mercado para a entrada de empresas estrangeiras, muitas vezes por meio de joint ventures e transferência de tecnologia, a China aprendeu muito rapidamente a desenvolver produtos com qualidade. A disponibilidade de mão de obra, um forte investimento do Estado e um planejamento centralizado potencializaram esse movimento. Com isso, veio a escala e, consequentemente, a produção com preço competitivo.
Na área de manufatura, é mais fácil visualizar isso na prática. Smartphones e carros elétricos são exemplos já consolidados. Mas apenas fabricar não era suficiente. Era preciso entrar nas etapas anteriores, de pesquisa, desenvolvimento e inovação. Esse é um movimento mais recente, mas que também se consolidou rapidamente. E a saúde não ficou de fora dessa evolução. Na área de produção científica, por exemplo, em 2024 os chineses ultrapassaram os americanos em produção de pesquisas em oncologia, segundo o Nature Index, índice da Nature que mede o avanço da ciência mundial. Foram 2.614 publicações sobre o tema em periódicos de alta qualidade, contra 2.481 dos Estados Unidos.
Uma das áreas que mais tem avançado é a de biotecnologia, aponta Rita Ragazzi, diretora de Acesso a Mercado e Policy Shaping da Prospectiva Lat.Am. Em 2022, o órgão econômico do Conselho de Estado chinês lançou um plano voltado para o desenvolvimento da bioeconomia, acompanhado de medidas como as superdeduções fiscais, que atraem multinacionais e fortalecem o potencial exportador das empresas locais. O país também foca na harmonização regulatória que, por sua vez, também atrai investimentos.
“Eles miram um canhão em tudo que precisa ser feito”, comenta a diretora da Prospectiva. “Formação de pessoas, investimento em P&D, construção de base instalada de toda a jornada, desde laboratório de P&D, de teste, centros de pesquisa clínica, hospitais para teste. Além disso, tem toda a inteligência regulatória. Eles mexeram a regulação visando o desenvolvimento econômico industrial”.
Um relatório do Harvard Belfer Center divulgado no último mês mostra que a China tem uma oportunidade de ultrapassar os EUA em biotecnologia. O país tem se tornado fonte de medicamentos competitivos e inovadores e atraído cada vez mais investimentos externos. A Pfizer, por exemplo, anunciou recentemente o pagamento de US$ 1,25 bilhão para licenciar um tratamento experimental de câncer da empresa chinesa 3SBio.
Segundo Ragazzi, o país consegue se alçar por meio do comprometimento com os requisitos de qualidade e de efetividade, da mesma forma que outros no mercado, porém com a vantagem de gerar um menor impacto no orçamento devido à capacidade de produção.
Presença no Brasil
O Brasil, que não só mantém boas relações como tem estreitado essa parceria, acaba sendo um mercado de destino dessas novas tecnologias. A diferença é que, nos tempos mais recentes, a China passou a olhar para os mercados internacionais de forma diferente. “Os chineses têm entrado com uma agressividade e com um protagonismo diferente”, comenta Rafael Freixo, sócio da L.E.K. Consulting. “Antes, deixavam isso na mão do distribuidor, mas eles vêm olhando o Brasil com outros olhos, de fato uma presença em vendas.”
Para Norberto Prestes, presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos (Abiquifi), essa presença mais estruturada em territórios como o Brasil é uma tendência que deve se intensificar nos próximos anos: “Os acordos e parcerias significam não só venda, mas produção local, transferência de tecnologia, investimento”. Segundo Prestes, o país asiático se posiciona na América Latina desenvolvendo parcerias, com iniciativas simultâneas em outros países, como a construção do megaporto de Chancay no Peru e a retomada da discussão da Ferrovia Bioceânica, uma linha de trem entre o Peru à Bahia.
Em maio, diversos acordos bilaterais estratégicos foram firmados entre o governo brasileiro e o país asiático, em uma viagem do governo Lula à China. Entre os destaques da área da saúde estão a produção nacional da insulina glargina e da vacina contra a dengue no Brasil. Durante o encontro do BRICS, em 7 de julho, o Ministério da Saúde apresentou também ao Novo Banco do Desenvolvimento o protocolo de financiamento de US$ 320 milhões para a construção do primeiro hospital inteligente do SUS. O projeto inclui avanços no uso de dados na saúde e tecnologias para medir a eficiência de um ambiente de saúde. “A ideia do hospital inteligente está relacionada com uma fortaleza deles e faz todo sentido quando se pensa em sustentabilidade da saúde”, explica Ragazzi.
Há mais exemplos. Uma parceria entre Eurofarma e Sinovac Biotech pretende criar o Instituto Brasil-China para Inovação em Biotecnologia e Doenças Infecciosas e Degenerativas, o iBRID. A farmacêutica brasileira Nortec Química anunciou uma parceria com Acebright, Aurisco e Goto Biopharm para construção de uma plataforma industrial de Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs), com um aporte de R$ 350 milhões. Além disso, a atualização de equipamentos de raios-X une a CareRay, Shantou Institute of Ultrasonic Instruments e outras empresas.
China no mercado de tecnologias médicas
Um dos principais polos de tecnologia chinesa é o mercado de equipamentos e tecnologias médicas. A China já figura como terceira maior exportadora de dispositivos médicos ao mercado brasileiro, ficando atrás somente dos Estados Unidos e Alemanha. Em 2024, foram US$ 1,22 bilhão em importações desse segmento de origem chinesa, segundo relatório da Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos (Abimo) com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
“O Brasil tem um volume de negócios bastante interessante com a China distribuído de várias maneiras. Tem empresas de dispositivos médicos já operando no Brasil, ao mesmo tempo o licenciamento de vendas de produtos chineses ou licenciamento do produto com marca brasileira. Vemos uma ampla gama de participação da tecnologia chinesa dentro do mercado brasileiro”, comenta Fernando Silveira, presidente executivo da Abimed (Associação Brasileira da Indústria de Tecnologia para Saúde).
Silveira também acredita que a presença da China no Brasil deve se acentuar ao longo dos próximos anos, via parceria ou de forma mais direta, com produtos. Uma parcela dos investimentos de novos acordos até agora divulgados é destinada à indústria de dispositivos e equipamentos médicos. Mas, segundo ele, ainda falta compreender como a transferência de tecnologia ocorrerá.
Ainda que o sucesso dos acordos sejam incertos, Jamir Dagir, presidente da Abimo, defende que, com uma boa articulação, o Brasil pode ter uma oportunidade de garantir mais inovação e fortalecimento próprios, como no Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS). Para isso, é preciso que as autoridades brasileiras direcionem as estratégias para uma maior valorização do território e suas principais necessidades, levando em conta, por exemplo, a capacidade tecnológica das universidades brasileiras. “Não pode ser algo de dependência. A parceria acontece aqui, então há que se manter a personalidade territorial, consolidando uma estratégia que permita alavancar nossas competências”, observa.
Nesta linha, Dagir reforça a necessidade dessas parcerias envolverem transferência de tecnologia: “Nós temos grandes distribuidores levando pessoas do governo para visitar parques industriais da China, que são cativantes. Mas eu quero ver esses parques em funcionamento no Brasil, fabricando robôs com tecnologia chinesa. Quando eu fabrico com a tecnologia, eu aprendo a fabricação”.
Do lado da indústria chinesa
A inovação é reconhecidamente um dos polos de investimento da China. “A saúde tem muito para desenvolver e aprender com a China — em avanços de 5G, conectividade, hospital inteligente. Essa troca é muito vantajosa para todos nós”, diz Mirangela Machado, diretora-executiva da MicroPort, empresa chinesa especializada em equipamentos médicos, que começou suas operações no Brasil em 2021.
Com uma população de mais de 200 milhões de pessoas, o mercado brasileiro é atrativo para empresas estrangeiras. Ao mesmo tempo, para Machado, a chegada de exemplos tecnológicos no Brasil não apenas colabora para a modernização de todo o sistema de saúde, mas também pode diminuir pressões sofridas pelo setor nos últimos anos. “É uma oportunidade de termos mais acesso, qualidade do produto e com menos ônus”, comenta.
A Mindray, fornecedora global de dispositivos e soluções médicas, é outro exemplo que já está no país há quase duas décadas. “É uma economia que por muitos e muitos anos, mesmo com altos e baixos, cresce. A área da saúde aqui é evoluída: em conceito, infraestrutura e medicina, propriamente dita. E a Mindray, com certeza, não queria ficar fora desse mercado”, comenta Leandro Medina, gerente de marketing da empresa.
Para ele, o sucesso de uma empresa china no Brasil se dá a partir de alguns fatores, como ter uma boa rede de distribuição pelo país e gerar confiança nos usuários. Além disso, é preciso sustentar sua capacidade de mercado. Ele acredita que as novas parcerias e relações entre Brasil e China são capazes de motivar outras empresas a virem se instalar no país. “A grande questão é quais vão se sustentar. Quais vão se adequar às nossas necessidades e realmente ter disposição para continuar no mercado brasileiro”, comenta.
Medicamentos e insumos farmacêuticos
No segmento farmacêutico, o cenário se divide. De um lado, o Brasil depende muito das importações de Insumos Farmacêuticos Ativos (IFA), essenciais para produção de vacinas e medicamentos. De todo o IFA utilizado no Brasil, apenas 5% se origina de produção nacional — 95% são importados de países com a China e Índia. Em 2024, foram importados cerca de US$ 1,4 bilhão de IFA chinês e US$ 413,8 milhões de IFA indiano.
De outro lado, há um grande protagonismo brasileiro no setor farmacêutico, sendo o principal mercado da América Latina, à frente de México, Colômbia e Argentina. De acordo com publicação do Sindusfarma (Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos), o país tinha 411 empresas farmacêuticas em 2023 e 72% delas eram de capital nacional enquanto menos de um terço (28%) eram internacionais. No total, as empresas de capital nacional responderam por 51% do faturamento e 81% das unidades (caixas) vendidas.
“As nossas indústrias estão muito bem-posicionadas aqui. São elas que estão no varejo, que estão no dia a dia da comercialização. Quando olhamos para o IFA, a quantidade [importada] é maior e ele é mais complicado para produzir em outros países, porque é uma questão de escala”, comenta Nelson Mussolini, presidente executivo do Sindusfarma. Segundo ele, o mercado farmacêutico do Brasil é muito específico, o que costuma dificultar a penetração de concorrentes estrangeiros.
Para Mussolini, indústrias farmacêuticas chinesas estabelecidas no Brasil ainda não são um negócio representativo, mas a construção de fábricas é bem-vinda pela empregabilidade que podem gerar ao país, além da tecnologia. “A China está se desenvolvendo muito, inclusive na tentativa de trazer produtos inovadores. Como eles precisam fazer testes, o Brasil talvez seja uma boa plataforma para fazer isso, o que pode trazer muito capital e conhecimento para nós.”
Outros pontos estratégicos incluem o abastecimento de vacinas e o avanço em inovações médicas. Segundo Ragazzi, da Prospectiva, uma nova frente de investimento é a longevidade. “Eles acompanham um movimento que o mundo inteiro está fazendo, de investir em drogas de oncologia, imunologia, doenças autoimunes e crônicas. E talvez tenham uma base de dados muito maior para fazer isso”, pontua.











