A proposta de aquisição da Warner Bros. Discovery pela Paramount Skydance, avaliada em US$ 111 bilhões, abriu uma divisão entre os principais exibidores de cinema dos Estados Unidos.
Enquanto a entidade que representa as salas de exibição alerta para o risco de concentração e redução no número de filmes disponíveis, as maiores redes do país defendem a operação.
De acordo com a Variety, a disputa ganhou força nas últimas semanas, em meio à batalha antitruste que mantém a fusão sob análise da Justiça americana.
Maiores redes apoiam o negócio
Adam Aron, CEO da AMC Theatres, e Eduardo Acuña, presidente da Regal Cinemas, estão entre os executivos que apoiam a união das empresas.
A posição contrasta com a estratégia da Cinema United, principal organização de representação dos exibidores americanos. O grupo afirma que uma concentração maior entre estúdios pode reduzir a oferta de filmes e aumentar a pressão sobre os cinemas, principalmente os menores.
A divergência coloca a organização diante de um problema interno. AMC e Regal estão entre seus membros mais importantes e representam uma parcela significativa do mercado de exibição dos Estados Unidos. A Cinemark, terceira maior rede do país, ainda não declarou apoio oficial à fusão.
Cinema United teme perda de poder dos cinemas
A principal preocupação da Cinema United é o impacto que uma empresa ainda maior poderia exercer sobre a programação das salas.
O receio não está apenas relacionado ao número de filmes produzidos. Para os exibidores, uma concentração maior entre os grandes estúdios pode aumentar o poder de negociação de quem controla os lançamentos mais importantes de Hollywood.
A organização também chama atenção para a situação dos cinemas independentes. Mais de 90% de seus integrantes administram menos de 75 telas. Esses estabelecimentos possuem menos poder de barganha e podem ser mais afetados por mudanças nas condições de distribuição. O temor é que os cinemas menores tenham menos opções de filmes e fiquem mais dependentes das decisões dos grandes estúdios.
Paramount promete pelo menos 30 filmes por ano
Um dos argumentos usados pelos executivos favoráveis à fusão é a promessa de aumentar a quantidade de produções destinadas às salas de cinema. David Ellison, CEO da Paramount Skydance, afirmou que a empresa resultante do negócio pretende lançar pelo menos 30 filmes por ano.
O volume seria superior ao de grandes concorrentes como Disney e Universal, que costumam lançar entre 16 e 20 filmes anualmente, segundo informações do setor.
Para AMC e Regal, uma programação mais ampla poderia representar uma vantagem para os exibidores e ajudar a sustentar o movimento nas salas. A Cinema United, porém, questiona se essa promessa será mantida depois da conclusão da operação.
Dívida e cortes alimentam preocupação
Outro ponto de tensão envolve a estrutura financeira da futura companhia. A empresa combinada teria cerca de US$ 80 bilhões em dívidas e prevê aproximadamente US$ 6 bilhões em cortes relacionados à sobreposição de operações.
Para os críticos da fusão, esse cenário levanta dúvidas sobre a capacidade de manter uma produção elevada de filmes no longo prazo.
A preocupação também é influenciada pelo histórico recente de consolidação em Hollywood. Exibidores afirmam que ainda sentem os efeitos da aquisição da 21st Century Fox pela Disney, concluída em 2019, que alterou o número e a distribuição de lançamentos disponíveis para os cinemas.
Apoio de AMC e Regal causa desconforto
A divisão ganhou maior dimensão depois que Aron passou a defender publicamente a operação. O executivo argumenta que a combinação entre Paramount e Warner Bros. pode criar uma companhia mais forte diante das plataformas de streaming e das empresas de tecnologia que disputam a atenção do público.
Acuña seguiu caminho semelhante. O executivo afirmou que prolongar a incerteza em torno da transação poderia ser prejudicial ao setor justamente em um momento de recuperação das bilheterias americanas.
A indústria cinematográfica dos Estados Unidos vive uma temporada de verão considerada forte após os anos de queda provocados pela pandemia. A expectativa é que a receita anual das salas americanas alcance US$ 10 bilhões, algo que não acontece desde 2019.
Fusão também enfrenta batalha na Justiça
A discussão entre os exibidores acontece enquanto a aquisição enfrenta uma ação antitruste nos Estados Unidos. Em julho, 12 procuradores-gerais estaduais entraram com uma ação para impedir a operação. Eles argumentam que a união concentraria poder em mercados de televisão por assinatura e distribuição cinematográfica.
A Justiça federal determinou a suspensão temporária da operação e, posteriormente, a Paramount concordou em adiar o fechamento da transação até depois do julgamento do processo antitruste. O acordo pode manter a fusão suspensa por vários meses.
A Europa já deu sinal verde para a operação, mas com condições. A Comissão Europeia aprovou a fusão após a Paramount concordar em encerrar sua parceria de distribuição de filmes com a Universal em determinados mercados europeus.
O que está em jogo para os cinemas?
Para as grandes redes, a fusão pode significar uma maior oferta de filmes e uma relação comercial mais previsível com o novo estúdio.
Para os cinemas independentes, o cenário é mais incerto. O principal temor é que uma empresa com um catálogo maior possa impor condições mais duras de distribuição ou concentrar os principais lançamentos em determinadas redes e mercados.
A discussão, portanto, vai além da compra de um estúdio por outro. O resultado pode alterar a relação entre Hollywood e os donos das salas de cinema em um momento em que o setor ainda tenta recuperar o público e equilibrar a concorrência com o streaming.
Enquanto AMC e Regal apostam nos possíveis ganhos de uma companhia maior, a Cinema United mantém a pressão por garantias que protejam os exibidores.
A divisão mostra que, para os donos de cinemas americanos, a questão central não é apenas se a Paramount conseguirá comprar a Warner Bros., mas quem terá mais poder quando os grandes estúdios estiverem ainda mais concentrados.
Fonte: Times Brasil