Por Carla Acquaviva (*)
O ano de 2026 representa um marco importante na pauta ESG (sigla em inglês para Meio Ambiente, Social e Governança), consolidando a sustentabilidade como um pilar estratégico e regulatório dos negócios no Brasil e no mundo.
De acordo com a pesquisa “Panorama ESG 2024” da Amcham Brasil (Câmara de Comércio Americana), 71% das empresas brasileiras já adotam práticas ESG — um crescimento expressivo de 24 pontos percentuais em relação ao ano anterior. Entre os principais motivadores estão o impacto positivo sobre o meio ambiente e questões sociais (78%), o fortalecimento da reputação no mercado (77%) e o melhor relacionamento com stakeholders (63%).
Esses avanços acompanham um movimento global iniciado em 2004, quando o então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, convidou líderes do setor financeiro a integrarem critérios ambientais, sociais e de governança às decisões de investimento — dando origem ao conceito de ESG.
Desde então, organismos internacionais e governos vêm fortalecendo estruturas regulatórias e métricas de sustentabilidade, muitas delas alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) definidos pela ONU, que servem como referência global para o impacto positivo das empresas.
Acordos internacionais, como o firmado entre o Mercosul e a União Europeia (UE), reforçam a importância das práticas ESG ao proporcionar acesso preferencial a um mercado de 700 milhões de consumidores, com alto padrão de exigência e valor agregado, que valoriza a sustentabilidade e a transparência. Segundo a ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), a conclusão do acordo pode gerar um aumento de cerca de US$ 7 bilhões nas exportações brasileiras.
Além disso, entra em vigor neste ano a Resolução nº 193 da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), que obriga companhias de capital aberto listadas na bolsa de valores brasileira a apresentar relatórios de sustentabilidade de acordo com os padrões internacionais IFRS S1 e S2, do ISSB (International Sustainability Standards Board). A transparência, antes um diferencial, torna-se agora uma exigência regulatória, com foco em riscos climáticos, emissões de gases de efeito estufa (Escopos 1, 2 e 3) e impactos sociais.
Riscos climáticos – a nova fronteira da governança
Nesse cenário de maior rigor regulatório e integração internacional, a gestão de riscos climáticos passa a ser tratada como questão estratégica e incorporada de forma prática à governança corporativa.
Segundo a Pesquisa de Adaptação Climática 2025, da Marsh Risk, maior corretora de seguros e consultoria de riscos do mundo, 78% das empresas globais já enfrentam impactos de eventos climáticos — como inundações, altas temperaturas e estresse hídrico —, e 74% das organizações afirmam ter registrado perdas de ativos e interrupções operacionais.
No entanto, apenas 38% das empresas investem de forma adequada em prevenção. O estudo mostra que cada dólar investido em adaptação pode evitar até US$ 13 em perdas futuras, evidenciando a necessidade de planejamento e resiliência.
Cadeia de valor e tecnologia
Paralelamente ao avanço das exigências ambientais, a responsabilidade sobre a cadeia de valor se intensifica. A União Europeia lidera essa transformação, exigindo diligência socioambiental de fornecedores. No Brasil, esse movimento cria um efeito cascata: grandes contratantes passam a demandar comprovações de práticas ESG de seus fornecedores e parceiros, elevando o padrão de gestão em toda a cadeia produtiva.
Ao mesmo tempo, a tecnologia ganha papel decisivo na consolidação dessa agenda. A inteligência artificial (IA) e o machine learning assumem protagonismo no monitoramento de emissões de gases de efeito estufa (GEE), na gestão de riscos e na geração de relatórios. Um estudo da consultoria KPMG aponta que a combinação entre tecnologia, governança e metas robustas será o motor de avanço do ESG nos próximos anos.
Essas transformações mostram que os pilares Ambiental, Social e de Governança são interdependentes — e que o avanço em um pilar depende da maturidade dos outros.
Uma evidência disso é o pilar Social do ESG, que ganha ainda mais relevância: investidores, clientes e colaboradores cobram resultados concretos em diversidade, equidade e inclusão. Mais do que políticas, o mercado exige métricas e evidências de avanço em representatividade, equidade salarial e ambientes de trabalho inclusivos.
A alteração da Norma Regulamentadora 1 (NR1), com vigência plena e fiscalização a partir de maio de 2026, é um exemplo de destaque no pilar Social (S), na medida em que passa a exigir a gestão de riscos psicossociais — como estresse, burnout e assédio —, tornando a saúde mental parte central do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). Além disso, essa normativa deve estar amparada pelo pilar da Governança (G), visando garantir a conformidade e prevenir possíveis autuações.
Mas, para muitas organizações, o desafio é transformar o compromisso em ações concretas, uma vez que a jornada ESG exige uma metodologia prática e integrada.
Por isso, contar com parceiros e uma equipe preparada para lidar com essa transformação será essencial neste processo. Em resumo, o ESG deixa de ser tendência em 2026 e se torna condição para competitividade e perenidade empresarial. Deixou de ser escolha e passou a ser requisito básico para se manter competitivo no mundo dos negócios.(*) Carla Acquaviva é jornalista e consultora estratégica em ESG (Meio Ambiente, Social e Governança), com foco em apoiar empresas na integração desses princípios às suas estratégias de negócio, comunicação e posicionamento de marca.