O tarifaço dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros pode ganhar importância para o setor de etanol a partir de maio de 2027, quando uma safra maior de cana tende a elevar a oferta doméstica e pressionar os preços, segundo Maurício Muruci, analista de mercado de açúcar e etanol da Safras & Mercado.
Segundo Maurício, o momento atual é diferente: a segunda metade da safra brasileira deve reduzir a disponibilidade de cana e, consequentemente, de etanol.
Nesse cenário, uma eventual reabertura do mercado americano não seria urgente para as usinas brasileiras. Pelo contrário: o aumento das exportações poderia reduzir ainda mais a oferta disponível no mercado interno e pressionar os preços ao consumidor.
“Uma reabertura de um mercado nesse momento […] enxuga ainda mais a oferta interna do etanol e eleva os preços para o consumidor final aqui no Brasil”, afirmou.
Janela mais importante seria em 2027
Na avaliação de Muruci, o cenário muda a partir de maio do próximo ano, quando a expectativa é de uma safra maior de cana. A produção elevada poderia gerar excedente de etanol no mercado brasileiro e, consequentemente, pressionar os preços para baixo.
É nesse momento que a abertura de novos destinos para as exportações ganharia importância para as usinas. “A partir de maio do ano que vem, nós teremos um grande excedente interno de etanol e esse excedente interno vai depreciar os preços”, disse.
Segundo o analista, o Brasil tem capacidade para ampliar significativamente as exportações de etanol, mas ainda encontra dificuldades para acessar mercados internacionais.
A abertura do mercado americano, portanto, seria mais estratégica para o setor diante de uma eventual combinação de produção maior e demanda doméstica insuficiente para absorver todo o volume disponível.
Muruci estima em 60% a 70% a chance de sucesso das negociações entre Brasil e Estados Unidos. A projeção, segundo ele, está relacionada principalmente à reabertura do canal de diálogo entre os governos dos dois países.
O analista avalia que a aproximação entre as presidências reduz o risco político de manutenção das barreiras comerciais e pode favorecer uma solução negociada.
Outros mercados
Enquanto o mercado americano permanece em negociação, Muruci vê oportunidades para o Brasil ampliar sua presença em outros destinos, especialmente na Europa.
No caso do açúcar, ele avalia que o Brasil não depende dos Estados Unidos, já que China, outros países da Ásia e o Oriente Médio são mercados relevantes para as exportações brasileiras. A Europa também poderia ganhar importância diante das perspectivas de redução da produção na região.
Para o etanol, a avaliação é semelhante, mas com uma diferença: a abertura de novos mercados é considerada mais importante, já que o produto tem menos opções de destinos internacionais.
“O que falta para o Brasil elevar suas exportações é lobby político internacional, que o Brasil vá em busca de novos mercados, principalmente na Europa”, afirmou.
Segundo Muruci, a transição energética pode favorecer essa estratégia. A Europa, na avaliação dele, apresenta uma demanda crescente por alternativas voltadas à descarbonização, o que abre espaço para os biocombustíveis brasileiros.
Assim, o impacto do tarifaço sobre o setor tende a depender do momento do ciclo de produção. No curto prazo, a oferta mais restrita reduz a urgência por novos mercados. A partir de 2027, porém, uma produção maior pode tornar a abertura de destinos internacionais mais importante para evitar excesso de oferta e queda dos preços do etanol no Brasil.
Fonte: Times Brasil