A SpaceX precisou adiar, na quinta-feira (22), o voo inaugural do Starship V3, a versão mais recente e mais potente do foguete que a empresa considera central para seu futuro comercial. O lançamento estava previsto para a noite daquele dia na base de Starbase, próxima a Brownsville, no Texas, mas engenheiros identificaram falhas repetidas nos momentos finais da contagem regressiva.
O CEO Elon Musk confirmou o problema em postagem nas redes sociais. Segundo ele, um pino hidráulico em parte da torre de lançamento não funcionou corretamente. A empresa avaliava tentar o voo na sexta-feira (23), caso a falha fosse corrigida durante a madrugada.
O adiamento ocorre em um momento de exposição máxima para a SpaceX. A companhia protocolou, na quarta-feira (21), o prospecto de abertura de capital, e o Starship aparece logo no topo da lista de fatores de risco do documento.
Starship lidera riscos do IPO
A relevância do foguete para o futuro da empresa é proporcional ao peso que ele representa nas finanças atuais. O prospecto do IPO revelou que a SpaceX gastou US$ 15 bilhões desenvolvendo o Starship até hoje, sendo US$ 3 bilhões só em 2025.
O impacto aparece nos resultados. A divisão espacial da companhia registrou prejuízo de US$ 662 milhões no primeiro trimestre deste ano, período encerrado em 31 de março. A própria empresa atribuiu o resultado ao ritmo elevado de investimentos no foguete e na infraestrutura associada.
A SpaceX sinalizou que os gastos com pesquisa e desenvolvimento devem crescer ao longo do ano. Cerca de 80% dos componentes do Starship são fabricados internamente, o que amplia o controle sobre o processo, mas também concentra os custos.
Histórico misto em 11 testes
O Starship acumula 11 voos de teste ao longo dos últimos três anos, com resultados variados. A SpaceX conseguiu implantar cargas de satélites simulados e recuperar o propulsor com o sistema de garras gigantes, apelidado de “pauzinhos”, considerado um avanço para a reutilização rápida do foguete.
Por outro lado, alguns testes terminaram em explosão. Um deles, em junho do ano passado, foi sentido por moradores a quilômetros de distância. Outro, no início de 2025, chegou a ameaçar rotas de aviação comercial no Caribe, conforme relatado pelo The Wall Street Journal.
O Starship V3 traz mudanças em praticamente todos os subsistemas. O tubo de transferência de combustível para os 33 motores Raptor foi reprojetado para permitir ignição simultânea e mais rápida. Os motores foram otimizados para gerar mais empuxo com menos peso. “Quase todas as partes do Starship V3 são diferentes do V2”, escreveu Musk no domingo (18).
Satélites Starlink e planos de longo prazo
A missão adiada deveria lançar 20 simuladores de satélites Starlink e testar os revestimentos térmicos que protegem o veículo durante a reentrada na atmosfera. O plano da SpaceX é usar o Starship para implantar satélites Starlink em escala a partir do segundo semestre deste ano, com capacidade de até 60 unidades por voo.
Para efeito de comparação, o Falcon 9, principal foguete da empresa atualmente, transporta até 23 toneladas métricas para a órbita terrestre baixa. O Starship V3 foi projetado para carregar 100 toneladas métricas no mesmo trajeto.
A SpaceX afirma que, quando o foguete estiver operando em regime regular, o custo para atingir a órbita poderá cair mais de 99% em relação às médias históricas do setor. O documento do IPO também menciona planos de reabastecer o foguete em órbita, o que abriria caminho para missões a Marte e mineração de asteroides, além de voos comerciais intercontinentais em alta velocidade em parceria com a Força Aérea americana.
A própria empresa admitiu, no prospecto, que o reabastecimento orbital ainda não foi tentado nem demonstrado.
NASA e missão lunar dependem do foguete
A agência espacial americana aguarda uma versão do Starship para uma missão de demonstração prevista para o ano que vem, etapa que abriria caminho para um pouso na Lua em 2028.
Musk havia prometido que o foguete estaria em voos operacionais anos atrás. Equipes internas chegaram a trabalhar em 2025 para tentar viabilizar uma missão a Marte ainda neste ano, meta que foi descartada. Um voo ao planeta vermelho não está mais no horizonte de 2026.
Daniel Hanson, gestor sênior de portfólio da Neuberger Berman e responsável por um fundo com participação na SpaceX, avaliou que o caminho ainda é longo, mas demonstrou confiança na equipe. “O histórico de execução deles não tem igual, mas isso é algo difícil de acertar. Essa equipe, com o tempo, vai executar no Starship, e isso vai gerar valor enorme”, disse.
Fonte: Times Brasil