O Brasil está sofrendo menos com a disparada do barril de petróleo do que grande parte do mundo. A avaliação é de Cristiano Pinto da Costa, presidente da Shell Brasil, em entrevista ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC no quadro Parlatório Talks.
Segundo ele, o país deixou de ser importador líquido de petróleo há cerca de 20 anos, quando o pré-sal na Bacia de Santos entrou em operação. Desde então, o Brasil exporta mais do que consome, o que o coloca em posição diferente da maioria das economias afetadas pela crise energética no Oriente Médio.
“O Brasil fez um trabalho fantástico nas últimas décadas de criar a sua autossuficiência”, afirmou o executivo durante a entrevista, gravada enquanto o barril voltava a se aproximar dos US$ 120.
Governo embolsa dois terços de cada barril de petróleo produzido
O principal beneficiário do petróleo caro, segundo Pinto da Costa, é o próprio governo brasileiro. Para cada três barris produzidos no país, dois ficam com o Estado em alguma forma de tributação, seja por royalties, participação especial ou imposto de renda.
Os dados são do Instituto Brasileiro de Petróleo. Para efeito de comparação, nos Estados Unidos a proporção é de um barril por três em impostos, menos da metade do que é recolhido no Brasil.
“Desproporcionalmente, essa receita adicional com o aumento do preço do petróleo vai para os cofres do governo brasileiro”, disse o presidente da Shell Brasil.
Diesel e gás natural seguem como pontos de atenção
A autossuficiência, porém, não é completa. O Brasil ainda importa entre 20% e 30% do diesel consumido internamente, o que torna o mercado de combustíveis sensível à alta internacional. O executivo citou esse fator como justificativa para as medidas adotadas pelo governo para conter o aumento nos preços na bomba.
O gás natural é outra vulnerabilidade. O país importa GNL em períodos de baixa nos reservatórios hidrelétricos. Por ora, o sistema está equilibrado, mas Pinto da Costa alertou que, se o conflito no Oriente Médio se prolongar e coincidir com período de baixa chuva, o Brasil pode enfrentar preços mais altos no gás.
Conflito eleva barril e esgota estoques globais
O cenário internacional que sustenta os preços elevados é detalhado pelo executivo. Mais de 20% do petróleo mundial e 25% do gás natural liquefeito global passam pelo Estreito de Ormuz. Economias asiáticas dependem em 70% a 80% do Oriente Médio para suprir sua demanda energética.
Além do impacto logístico, o conflito atingiu refinarias, plantas de GNL e instalações de armazenamento na região. A recuperação dessas infraestruturas deve levar tempo, segundo Pinto da Costa. Os estoques globais que amorteceram o choque nos primeiros meses estão sendo consumidos.
Imposto de exportação de petróleo gera atrito com o setor
A Shell também trouxe críticas à Medida Provisória 1340, que elevou o imposto sobre exportações de petróleo em 12%. Para o executivo, a medida era desnecessária. Um estudo do Instituto Brasileiro de Petróleo aponta que a alta do barril de US$ 60-70 para mais de US$ 100 já geraria R$ 45 bilhões em receita adicional ao governo, suficientes para financiar a desoneração de combustíveis sem a necessidade do imposto.
O ponto mais sensível, na visão da Shell, é o sinal que a medida envia ao mercado. Em quatro anos, o Brasil aplicou dois impostos de exportação temporários sobre o petróleo, o de 9,2% em 2023 e o de 12% agora. Para investidores internacionais com ciclos de retorno de 7 a 10 anos e contratos de 30 anos, esse histórico entra no cálculo de risco.
“Você tem que colocar ali um elemento de risco”, disse Pinto da Costa. “Isso tira competitividade do Brasil vis-à-vis outras províncias que estão fazendo o trabalho de tentar atrair o capital internacional.”
A Shell está há 113 anos em operação contínua no Brasil e é a segunda maior produtora de petróleo no país, atrás apenas da Petrobras.
A entrevista completa com Cristiano Pinto da Costa está disponível no canal do Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC no YouTube. O Parlatório Talks vai ao ar toda segunda-feira, às 20h30.
Fonte: Times Brasil