Por que a classe média virou o elo mais frágil do mercado imobiliário?

*Por Flávio Amary

A classe média sempre foi o principal motor do mercado imobiliário brasileiro. É ela que sustenta o volume de lançamentos, garante liquidez aos empreendimentos e mantém a engrenagem do setor em funcionamento. Nos últimos anos, porém, esse segmento passou a ocupar uma posição desconfortável: pressionado pelo custo do crédito, com menos opções de produto e cada vez mais distante do sonho da casa própria.

O principal fator dessa fragilização é o encarecimento do financiamento imobiliário. Com juros elevados e prazos mais restritivos, a capacidade de compra da classe média encolheu, especialmente nos grandes centros urbanos. O resultado é um desalinhamento entre renda, preço do imóvel e oferta disponível — um cenário que limita decisões de compra e posterga projetos familiares.

Ao mesmo tempo, o mercado passou a operar em dois extremos. De um lado, empreendimentos populares, fortemente ancorados em programas habitacionais. De outro, produtos de médio-alto e alto padrão, voltados a um público menos sensível ao custo do crédito. Entre esses polos, abriu-se um vazio: falta produto pensado especificamente para a classe média urbana, com localização adequada, metragem funcional e preço compatível.

Esse fenômeno não é exclusivo do Brasil. Em mercados maduros, como Estados Unidos e países da Europa, o debate sobre o chamado middle housing ganhou força nos últimos anos. A constatação é semelhante: a classe média enfrenta dificuldades crescentes para acessar moradia bem localizada, pressionada por custos de produção, restrições urbanísticas e mudanças no perfil das cidades.

No Brasil, a resposta passa por uma combinação de fatores. Rever marcos regulatórios, estimular modelos de financiamento mais flexíveis e incentivar a produção de imóveis de média densidade, bem integrados à malha urbana, são caminhos possíveis. Também é fundamental ampliar o diálogo entre poder público, incorporadores e agentes financeiros para reduzir o descompasso entre oferta e demanda.

Mais do que um desafio setorial, a fragilização da classe média é um tema urbano e social. Cidades que não conseguem oferecer moradia acessível para esse público tendem a se tornar mais desiguais, menos dinâmicas e mais dependentes de deslocamentos longos e ineficientes.

 O futuro do mercado imobiliário passa, necessariamente, por recolocar a classe média no centro da estratégia. Não como exceção, mas como pilar. Sem isso, o setor pode até crescer em volume ou valor, mas tende a fazê-lo de maneira assimétrica, com impactos negativos sobre a dinâmica urbana e a própria sustentabilidade do mercado.

* Flávio Amary é presidente da FIABCI-BRASIL

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