Pintando o futuro: como a indústria de tintas pretende reduzir 25% da pegada de carbono até 2030

Com projeto de economia circular e metas de redução de emissões, setor de tintas avança na agenda ambiental.

A indústria brasileira de tintas traçou uma meta para os próximos anos: reduzir em 25% a sua pegada de carbono até 2030. À frente desse movimento está a Abrafati (Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas), que vem mobilizando empresas do setor por meio do Programa Setorial de Sustentabilidade (PSS).

O primeiro Inventário Setorial da entidade, com base em dados de 2023, apontou que a indústria de tintas brasileira emitiu aproximadamente 44,5 mil toneladas de dióxido de carbono (CO₂) nos escopos 1 e 2, ou seja, emissões diretas e indiretas ligadas ao consumo de energia e processos térmicos. A meta traçada para 2030 prevê uma redução de quase 4% ao ano.

“O PSS é uma ferramenta de melhoria contínua. Ele ajuda as empresas a entenderem seu impacto e a direcionar ações prioritárias para reduzir esse impacto”, explica Luiz Cornachionni, presidente executivo da Abrafati. Atualmente, 27 das 36 fabricantes associadas – cerca de 75% do setor – já participam do programa, que reúne indicadores ambientais, sociais e de governança para medir avanços.

Segundo o executivo, o cálculo da pegada de carbono setorial foi um marco em 2023: a emissão média do setor está em 0,0274 quilo de dióxido de carbono equivalente (kgCO₂) e por quilo de tinta produzida. “Agora temos um ponto de partida para trabalhar em soluções concretas. A meta é reduzir para 0,020 kgCO₂e/kg até o fim da década”, afirma. Entre as medidas planejadas estão a substituição de combustíveis fósseis por biomassa nas caldeiras, a eletrificação de empilhadeiras e o uso de gases de refrigeração com menor potencial de aquecimento global.

Economia circular como prioridade

Outro eixo central da estratégia é a economia circular. A associação lançou o projeto RetornaTinta, com pontos de coleta para sobras de tintas e embalagens em Recife (PE). A iniciativa, que será expandida para Fortaleza (CE) em 2025, busca reduzir o descarte inadequado e incentivar o reaproveitamento de resíduos.

A indústria de tintas tem avançado em iniciativas de economia circular e logística reversa, mas ainda enfrenta desafios significativos. A AkzoNobel, empresa fabricante de tintas, por exemplo, vem transformando resíduos de lodo industrial em matéria-prima, o que reduziu cerca de 272 toneladas de CO₂ em 2024. A Suvinil já recuperou mais de 100 mil quilos de pó de exaustão entre 2022 e 2023, e, por meio do programa “Suvinil Circula”, coletou embalagens vazias e sobras de tinta. Ainda assim, o setor precisa enfrentar barreiras como conscientização insuficiente do consumidor, infraestrutura limitada para pontos de coleta e a complexidade técnica de reciclar uma gama variada de produtos químicos.

“Queremos criar uma cultura de retorno, em que as embalagens e até as tintas que sobram possam ganhar um novo destino. Isso exige engajamento das empresas, dos lojistas e também dos consumidores”, diz Cornacchioni. A expectativa é que, até 2030, todas as empresas associadas estejam no nível “avançado” de participação no Programa Setorial de Sustentabilidade (PSS). Hoje, 54% já atingiram essa classificação.

Desafios e regulação internacional

Até o momento, as metas de redução de emissões da ABRAFATI consideram apenas os escopos 1 e 2, ou seja, as emissões diretas das empresas e aquelas relacionadas ao consumo de energia. Porém, uma parte importante da pegada energética do setor reside no escopo 3, que engloba emissões indiretas provenientes da cadeia produtiva, como extração e transporte de matérias-primas petroquímicas, produção de insumos (resinas, solventes, embalagens), logística, e descarte final. Essas fontes, muitas vezes mais difíceis de quantificar, podem representar uma parcela significativa das emissões totais do setor e ainda não foram incorporadas às metas atuais.

Cornacchioni também destaca o papel das regulações globais, que influenciam diretamente o mercado brasileiro. “Estamos atentos às discussões sobre compostos como os PFAS e aos limites cada vez mais rígidos para VOCs e metais pesados. A indústria precisa se antecipar para não perder competitividade”, afirma.

Para o presidente da Abrafati, a pressão dos consumidores por produtos mais sustentáveis também tem sido um motor de mudança. “Quem compra tinta quer cada vez mais qualidade com menor impacto ambiental. Essa demanda é um incentivo para inovarmos”, conclui.

Fonte: Globo.com


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