Com as novas regras da CVM, comunicar práticas ESG deixa de ser diferencial e passa a ser requisito para medir impactos reais e liderar com coerência.
Por Carla Acquaviva *
Em um cenário de intensa exposição das marcas, a comunicação deixou de ser apenas uma função operacional e passou a ocupar o centro da estratégia corporativa. O avanço da agenda ESG (Meio Ambiente, Social e Governança) reforçou esse papel e exige que as empresas prestem contas não somente aos acionistas, mas a todo o ecossistema de stakeholders — colaboradores, clientes, fornecedores e comunidades.
Esse novo capitalismo de stakeholders, também chamado de capitalismo consciente, coloca a reputação como principal moeda de valor. E, segundo o Fórum Econômico Mundial, empresas que adotam esse modelo geram valor duradouro, pois constroem reputações sólidas e relações de confiança. Afinal, reputação é narrativa com lastro. Sem transparência e coerência, o discurso ESG não se sustenta.
A CVM (Comissão de Valores Mobiliários) já sinalizou o novo jogo: a partir de 2026, as empresas de capital aberto serão obrigadas a publicar relatórios de sustentabilidade seguindo os padrões internacionais do ISSB (International Sustainability Standards Board). Mais do que atender a uma exigência legal, essa mudança cria uma nova régua de transparência para o mercado e separará quem comunica o que faz de quem ainda “doura a pílula”.

Os relatórios de sustentabilidade são, sim, instrumentos de compliance, mas também são espelhos da cultura corporativa: revelam se há consistência entre o discurso e a prática. Também engajam consumidores atentos à sustentabilidade e fortalecem o orgulho dos colaboradores. Como disse Kofi Annan ao lançar o conceito de ESG: “Who cares wins” — quem se importa, vence.
Vale destacar que nenhuma estratégia de comunicação, por melhor que seja, compensa a ausência de ações concretas. As mensagens ESG precisam refletir resultados tangíveis e histórias reais, traduzindo o impacto das decisões empresariais no cotidiano de cada stakeholder.
A comunicação é também ferramenta estratégica para enfrentar crises. Quando está alinhada à gestão ESG, ajuda a identificar riscos que poderiam se transformar em grandes manchetes. Ter uma comunicação transparente, tanto para o público interno quanto externo, permite perceber fragilidades e construir uma narrativa consistente com as ações da empresa. Assim, a reputação deixa de ser vulnerável e passa a ser um ativo estratégico.
O primeiro passo é começar com o que já existe. A empresa não precisa ter relatórios sofisticados, mas pode comunicar suas práticas cotidianas em diferentes canais. Pequenas ações, campanhas internas, capacitação de colaboradores e parcerias com comunidades e instituições já são material legítimo de comunicação e demonstram transparência.
No fim, o ESG é sobre fazer o que se diz — e comunicar o que realmente se faz. Quando há coerência, a reputação fala por si. Empresas que já entenderam isso não apenas sobreviverão às novas exigências do mercado — elas definirão o padrão do que significa liderar com propósito.
* Carla Acquaviva é jornalista especializada em comunicação corporativa, gestão de crises e ESG.