O mercado global de luxo coloca o pé no freio após anos de expansão acelerada, em meio à desaceleração do mercado impulsionada por mudanças no comportamento do consumidor, tensões geopolíticas e aumento do custo de vida. Em contrapartida, o segmento de joias tem se destacado como uma das categorias mais resilientes do setor. Para Mariana Cerone, professora do Hub de Luxo da ESPM, a combinação entre preservação de patrimônio e valor simbólico tem levado consumidores de alta renda a direcionar parte dos investimentos para esse tipo de produto.
Segundo levantamento da consultoria Euromonitor, o mercado global de luxo movimentou 1,5 trilhão de dólares em 2025, crescimento de 3% em relação ao ano anterior. A expectativa é que o setor repita esse desempenho em 2026, com o avanço sustentado principalmente pelos mercados emergentes, entre eles o Brasil.
Na avaliação de Cerone, o país vem ganhando relevância para a indústria do luxo devido ao crescimento da população de indivíduos de alta e ultra-alta renda. “Todos os relatórios apontam que o Brasil será, muito em breve, um mercado bastante interessante para o luxo. Estamos vendo um aumento no número de pessoas com patrimônio de milhões de dólares, o que impulsiona o consumo desse segmento”, afirmou em entrevista ao programa Real Time.
A especialista destaca que o bom desempenho das joias não é um fenômeno isolado, mas reflete uma mudança de comportamento diante do cenário de instabilidade global. “A joia reúne duas características importantes: preserva o valor econômico e também o valor simbólico. Em momentos de incerteza, consumidores de alta renda voltam a buscar ativos que concentram essas duas qualidades”, explicou.
Segundo Cerone, esse movimento pode ser observado nos resultados divulgados pelos principais grupos internacionais de luxo. A LVMH, dona de marcas como Louis Vuitton, Dior e Tiffany & Co., registrou crescimento tímido na divisão de moda, enquanto o segmento de joalheria apresentou desempenho superior às expectativas do mercado. Já o grupo Kering, proprietário de marcas como Gucci, Balenciaga e da joalheria Boucheron, reportou expansão superior a 20% na categoria no último trimestre.
Apesar do avanço do segmento no Brasil, a professora pondera que o mercado nacional ainda não reproduz integralmente a tendência de consumo observada em países estrangeiros. “O consumidor brasileiro ainda está subindo essa escada do luxo. As joias crescem, mas o segmento de automóveis de luxo continua apresentando uma participação muito relevante”, disse.
Ela ressalta ainda que o perfil geográfico do consumo de luxo no país está mudando. Segundo Cerone, cidades do Centro-Oeste, impulsionadas pelo agronegócio, vêm registrando crescimento expressivo nas vendas de produtos de alto padrão. “O consumidor de luxo deixou de estar concentrado apenas no eixo Rio-São Paulo. O Centro-Oeste, especialmente Goiânia, aparece cada vez mais nos indicadores de consumo de luxo. Aí cresce automóveis, joias e relógios de luxo”, afirmou.
Para a especialista, o Brasil também pode se beneficiar como fornecedor de matéria-prima, já que é um importante produtor de ouro. No entanto, ela acredita que a maior oportunidade está no desenvolvimento da indústria nacional de alta joalheria. “Existe espaço para o Brasil crescer como referência em alta joalheria. É uma oportunidade para designers, ourives e empresas especializadas ampliarem sua presença nesse mercado”, avaliou.
Embora ainda considere cedo para medir o impacto da demanda sobre os investimentos do setor, Cerone afirma que o crescimento do consumo tende a estimular toda a cadeia produtiva. “Quando o consumidor passa a demandar mais produtos, naturalmente haverá necessidade de mais matéria-prima, novos designs e maior capacidade de produção. Esse movimento costuma atrair investimentos para o segmento”, concluiu.
Fonte: Times Brasil