A inadimplência no crédito rural disparou no Brasil e alcançou o maior nível desde 2011, em meio à combinação de juros altos, clima instável e queda nos preços das commodities. Segundo dados apresentados nesta terça-feira (9) pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o cenário preocupa e deve trazer desafios significativos para produtores rurais em 2026.
Em outubro de 2025, o crédito rural contratado com taxas de mercado registrou inadimplência de 11,4%, muito acima dos 3,54% de um ano antes. Em janeiro de 2023, esse índice era de apenas 0,59% — uma mudança considerada dramática pela CNA.
Juros altos agravam o endividamento no campo
A taxa Selic em 15% ao ano tem impacto direto no crédito rural, já que grande parte do financiamento no campo utiliza taxas de mercado, especialmente para custeio e investimento. Cada ponto percentual de alta nos juros encarece o plantio, reduz margem e dificulta renegociações.
Para a CNA, a política monetária restritiva prolonga a fragilidade financeira dos produtores:
“Com juros elevados e custos de produção altos, o produtor fica sem capacidade de pagamento e a inadimplência cresce”, avaliou a entidade na apresentação.
Além dos juros altos, os bancos também ficaram mais restritivos, exigindo garantias adicionais e reduzindo a liberação de crédito em regiões afetadas pelo clima.

Clima e preços mais baixos completam o cenário adverso
Os últimos anos foram marcados por perdas climáticas em diversas regiões — seca no Centro-Oeste, excesso de chuvas no Sul, geadas pontuais e atraso no plantio.
Esses eventos reduziram a produtividade, encurtaram as receitas e dificultaram o pagamento das dívidas.
Ao mesmo tempo, commodities como soja e milho tiveram preços menores do que o esperado, diminuindo a renda do produtor.
Esse conjunto de fatores ampliou o endividamento e elevou a inadimplência a níveis históricos.
Falta de seguro rural aumenta risco e deixa o setor exposto
A CNA destacou outro ponto crítico: o seguro rural cobriu apenas 2,2 milhões de hectares em 2025 — o pior desempenho desde 2007. Isso representa menos de 5% da área agricultável do país.
Sem seguro, o produtor assume sozinho as perdas de clima, o que gera um efeito cascata:
- aumenta a necessidade de crédito,
- reduz capacidade de pagamento,
- amplia risco para bancos,
- e pressiona ainda mais a inadimplência.
Para a Confederação, a falta de instrumentos de proteção financeira é um dos principais motivos para o aumento do endividamento.
Endividamento ameaça a próxima safra
A CNA afirmou que a recuperação econômica do produtor dependerá de soluções estruturais para reduzir vulnerabilidades.
Caso contrário, a inadimplência pode comprometer a capacidade de investimento para a safra 2026/27.
Entre as preocupações citadas estão:
- dificuldade crescente para acessar crédito novo,
- operações de custeio mais caras,
- risco de retração na área plantada,
- e atraso em investimentos em armazenagem e tecnologia.
Sem alívio nos juros e sem seguro rural adequado, a tendência é de que novos pedidos de renegociação e programas emergenciais voltem a ser discutidos em 2026.
Política fiscal também pode pressionar juros
A CNA avalia que 2026 será um ano desafiador para a economia brasileira. O governo dependerá de arrecadação maior para cumprir metas fiscais — o que pode restringir espaço para cortes significativos de juros.
Uma política monetária ainda dura aumenta o risco de que a inadimplência permaneça elevada por mais tempo.
Pressão para um novo modelo de financiamento
A CNA defende que o país precisa redesenhar sua estratégia de financiamento rural, ampliando:
- acesso ao seguro,
- linhas de crédito com juros menores,
- instrumentos de mitigação de risco climático,
- e alternativas ao financiamento exclusivamente bancário.
Sem essas mudanças, diz a entidade, o campo continuará vulnerável a ciclos de clima, preços e juros — e a inadimplência seguirá como um sintoma de uma estrutura financeira pressionada.
Fonte: Times Brasil