A alta recente do petróleo em meio à guerra no Oriente Médio reacendeu o debate sobre alternativas energéticas no transporte marítimo, mas para Ernani Paciornik, fundador do Grupo Náutica, o avanço do hidrogênio verde não depende apenas da cotação do barril.
Paciornik acompanha o tema de forma direta no setor náutico. O empresário lidera o desenvolvimento do Jacques H1, embarcação de 36 metros movida a hidrogênio e capaz de reduzir em até 80% as emissões, projeto criado em parceria com o Itaipu Parquetec, braço tecnológico de Itaipu.
“Não é sobre isso. A gente está falando da sobrevivência do planeta”, afirmou em entrevista nesta sexta-feira (17) ao Real Time, jornal do Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC.
Segundo Paciornik, embora petróleo mais caro melhore a competitividade relativa do hidrogênio, a principal motivação deve ser ambiental, já que combustíveis fósseis tendem a perder espaço no futuro.
“Daqui a uns dias não vai poder mais usar combustível fóssil. Não vai importar se está barato ou caro”, disse.
Falta cadeia pronta, mas mudança já começou
Na avaliação do empresário, a transição ainda enfrenta gargalos estruturais, especialmente pela ausência de uma cadeia de produção e abastecimento plenamente consolidada. “Ninguém vai montar uma cadeia de hidrogênio se o petróleo é mais barato”, pontuou.
Mesmo assim, ele defende que o avanço só ocorrerá com projetos práticos em operação. “Se a gente não começar a fazer, não vai acontecer”, declarou.
Projeto brasileiro já opera com hidrogênio
Segundo ele, o Jacques H1 utiliza célula de combustível fornecida pela chinesa GWM, fabricante também de automóveis como Haval e Tank.
A embarcação usa hidrogênio verde para abastecer toda a chamada hotelaria de bordo, como sistemas internos e infraestrutura operacional. “A hotelaria de um barco como o nosso gasta 2 mil litros por dia”, explicou.
Paciornik explicou que a propulsão também pode ocorrer por células de combustível alimentando motores elétricos.
No caso do grupo, porém, foi adotado outro modelo: motores da alemã MAN, empresa ligada à Volkswagen, capazes de operar com mistura energética. “Com 20% de hidrogênio ele tira 80% da poluição.”
Setor naval tem vantagem sobre carros
Para o empresário, navios e embarcações têm vantagem competitiva na adoção do hidrogênio em comparação com automóveis. “O navio pode sim trabalhar com hidrogênio porque vai de um porto para o outro”, lembrou.
Já no transporte rodoviário, a dificuldade seria a criação de ampla rede de abastecimento. “Um carro a hidrogênio já é muito mais difícil porque vai precisar de um monte de posto”, disse.
Segundo ele, se os portos do mundo passarem a contar com estações de hidrogênio, a escala de produção reduzirá custos e acelerará a adoção.
Fonte: Times Brasil