Guerra no Irã expõe fragilidade do petróleo e renováveis assumem posto de fonte segura

Por décadas, o argumento contra as renováveis foi sempre o mesmo: o sol nem sempre brilha, o vento nem sempre sopra. Agora, o fechamento do Estreito de Ormuz virou esse raciocínio de cabeça para baixo.

Com cerca de 20% do fornecimento mundial de petróleo e gás natural liquefeito bloqueado pelo conflito entre EUA, Israel e Irã, são os combustíveis fósseis que passaram a encarnar o risco de intermitência, e as renováveis que surgem como alternativa mais estável.

A mudança de narrativa foi tema central do Eurelectric Power Summit, realizado esta semana em Helsinque, na Finlândia, onde especialistas e os presidentes executivos das gigantes nórdicas Fortum e Statkraft avaliaram o impacto da guerra no Irã sobre o debate global de segurança energética.

🔍 Estreito de Ormuz Passagem marítima entre o Irã e a Península Arábica. Por ali circula cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito negociados globalmente. Seu fechamento afeta diretamente os preços de energia em todo o mundo.

Fósseis viraram o recurso intermitente

“Os grandes mantras, e fico surpreso de não ouvirmos mais pessoas falando sobre isso, é que os combustíveis fósseis agora são intermitentes e incertos, o que era exatamente o argumento usado contra as renováveis”, disse Kingsmill Bond, estrategista de energia do think tank britânico Ember, à CNBC em Helsinque.

Bond foi além. Segundo ele, pela primeira vez na história, os formuladores de políticas têm uma tecnologia alternativa superior à qual recorrer em momentos de choque energético. Nas crises do petróleo de 1973 e 1979, a saída foi construir usinas nucleares, processo que levava uma década e custava caro. Hoje, solar, eólica, baterias e eletrificação estão disponíveis em escala e a custos decrescentes.

“As renováveis, graças às baterias, tornaram-se bastante constantes, dado que o sol nasce toda manhã”, afirmou Bond. “Ainda estamos expostos demais ao sistema antigo e precisamos mudar, especialmente na Europa, e precisamos mudar muito rapidamente.”

CEOs nórdicos reforçam a virada

O presidente executivo da Fortum, Markus Rauramo, resumiu a posição da indústria ao ser questionado sobre a intermitência dos combustíveis fósseis importados. “É um tipo diferente de intermitência, mas absolutamente. A solução para depender de combustíveis importados com emissões de CO2 é ter eletricidade limpa produzida internamente.”

Birgitte Ringstad Vartdal, CEO da Statkraft, maior produtora de energia renovável da Europa, apontou o avanço das baterias como fator que reforça a viabilidade das renováveis como fonte confiável. Segundo ela, os custos caíram e a capacidade de armazenamento aumentou de forma expressiva nos últimos anos.

“Baterias mais solar, ou baterias mais solar e eólica, podem oferecer uma geração total muito maior”, disse Vartdal. Ela reconheceu, no entanto, que algum gás ainda será necessário no sistema para cobrir períodos prolongados de baixa produção renovável.

🔍 GNL (Gás Natural Liquefeito) Gás natural resfriado a temperaturas extremamente baixas para se tornar líquido e poder ser transportado em navios-tanque. É uma alternativa ao transporte por gasodutos e ganhou importância estratégica após o corte do fornecimento russo à Europa.

Europa troca uma dependência por outra

O fechamento de Ormuz acelerou uma tendência que já vinha se desenhando desde a invasão russa da Ucrânia em 2022: a corrida europeia pelo GNL americano. O problema, segundo Jan Rosenow, professor de política energética e climática da Universidade de Oxford, é que a solução criou uma nova vulnerabilidade.

“Vamos ter muito mais GNL na Europa, e grande parte virá dos EUA, dada a situação em Ormuz”, disse Rosenow à CNBC. “Isso significa que ficamos expostos a um país que é visto como bastante instável politicamente no que diz respeito às relações internacionais.”

Para Rosenow, a eletricidade gerada domesticamente a partir de renováveis é a única fonte que não carrega esse risco de dependência externa. O debate que por anos girou em torno da confiabilidade das fontes limpas parece ter encontrado, na guerra, seu argumento mais contundente.

Fonte: Times Brasil

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