Se você fornece para grandes empresas, já percebeu que o jogo mudou. Preço e qualidade continuam sendo exigidos, mas já não são diferenciais competitivos. Hoje, a adoção de práticas de ESG (Meio Ambiente, Social e Governança) está se tornando condição para iniciar uma negociação.
Ao longo da minha trajetória, tenho visto de perto como essa transformação nas grandes companhias reflete em toda a cadeia de fornecedores. E isso não é discurso. Desde a Resolução CVM nº 193, publicada em 2023, empresas listadas na bolsa de valores precisarão apresentar relatórios de sustentabilidade integrados aos financeiros a partir de 2026. Para isso, vão exigir de toda a cadeia de fornecedores informações claras sobre questões ambientais, sociais e de governança corporativa.
Na prática, mesmo que sua empresa não esteja na bolsa, você poderá ser cobrado pelo seu cliente. E já existem exemplos concretos disso. A Volkswagen do Brasil passou a avaliar a sustentabilidade de seus fornecedores em diferentes dimensões, com destaque para temas como direitos humanos, saúde e segurança, meio ambiente e combate à corrupção. As empresas que fornecem para esta montadora precisam compartilhar informações por meio de uma plataforma online e, em outras etapas, podem receber um questionário específico ou visitas presenciais com o objetivo de identificar eventuais riscos.
Efeito cascata
O que parecia distante para pequenas e médias indústrias (PMEs) hoje já se tornou critério de seleção para conquistar clientes e mercados.
Esse movimento exige mais do que ações pontuais: é preciso estruturar uma jornada de ESG de forma estratégica. Isso começa com a avaliação da maturidade da empresa, seguida pela escuta dos stakeholders e pelo levantamento dos temas materiais, ou seja, os assuntos que realmente importam para clientes, investidores, colaboradores e sociedade.
Só a partir desse processo é possível definir políticas consistentes, estabelecer metas claras, medir resultados e mostrar evolução com credibilidade. A boa notícia é que essa jornada pode começar de forma gradual, respeitando o porte e a realidade financeira de cada empresa.
O mercado já definiu a importância das políticas de ESG. Agora cabe às PMEs (Pequenas e Médias Empresas) decidirem se vão esperar a cobrança bater à porta — correndo o risco de perder contratos — ou se vão se antecipar e mostrar que estão prontas para o novo cenário.
Carla Acquaviva é jornalista, consultora em ESG com mais de 20 anos de experiência em comunicação corporativa, marketing e gestão de crises.