O Grupo Gennius, que reúne as marcas Habib’s, Ragazzo e Tendal, afirma na petição inicial de recuperação judicial que a crise financeira foi provocada por uma combinação de fatores que afetaram receitas, margens e capacidade de pagamento. Entre os principais argumentos apresentados à Justiça estão os efeitos prolongados da pandemia de Covid-19, a mudança no comportamento dos consumidores e o aumento do custo do crédito.
O pedido foi apresentado por 178 pessoas jurídicas que, segundo a empresa, funcionam de maneira integrada, além dos produtores rurais Alberto e Belchior Saraiva. A estrutura inclui holdings e franqueadoras, empresas de apoio e produção, seis churrascarias Tendal, 119 unidades Habib’s e 26 lojas Ragazzo.
O grupo solicita que as empresas sejam tratadas conjuntamente no processo, alegando que há administração coordenada e relações financeiras entre as diferentes sociedades.
Pandemia reduziu movimento nas lojas
Segundo a petição, um dos primeiros impactos ocorreu durante a pandemia, quando medidas de restrição à circulação e a adoção do trabalho remoto reduziram o fluxo de pessoas em regiões comerciais e empresariais. Parte relevante das unidades do grupo estava instalada em shoppings e áreas urbanas de grande circulação.
Na avaliação apresentada ao Judiciário, a redução do movimento não foi totalmente revertida com o fim das restrições. A expansão do trabalho híbrido e remoto teria mantido menor a circulação diária de trabalhadores nos centros urbanos, afetando a frequência dos consumidores nos restaurantes. O grupo afirma que isso criou um descompasso entre os investimentos realizados em unidades físicas e as receitas obtidas.
Delivery mudou relação com os restaurantes
Outro fator apontado é a mudança nos hábitos de consumo. O aumento dos pedidos por plataformas de delivery teria reduzido a frequência de clientes nos estabelecimentos físicos.
A petição afirma que, embora os aplicativos tenham ampliado as vendas por entrega, o modelo pressionou as margens das operações. Com menos consumidores nas lojas e maior participação dos pedidos feitos em casa, o grupo diz ter sofrido deterioração dos resultados operacionais.
Alta dos juros elevou custo das dívidas
A terceira frente apontada pelo grupo é financeira. De acordo com a petição, a elevação da taxa Selic, que passou de cerca de 4% para níveis próximos de 15% no período mencionado, aumentou o custo das dívidas contratadas, em grande parte durante a pandemia.
A empresa afirma que a alta dos juros pressionou o capital de giro e contribuiu para atrasos com fornecedores. A petição também informa que a dívida bancária do grupo supera R$ 300 milhões e que uma parcela crescente do caixa passou a ser destinada ao pagamento de obrigações financeiras, reduzindo a capacidade de investimento e a margem de manobra financeira.
Negociações com credores não evitaram a recuperação
Antes de recorrer à recuperação judicial, o Grupo Gennius havia pedido uma tutela cautelar à Justiça. A medida garantiu inicialmente proteção patrimonial por 60 dias e buscou criar condições para uma negociação coletiva com os credores.
Segundo a petição, porém, o período foi insuficiente para chegar a uma solução para o endividamento. O grupo relata ainda que alguns credores continuaram a adotar medidas como bloqueios de contas, execuções e restrições ao fornecimento de produtos. Diante do agravamento do caixa, a empresa afirma ter concluído que seria necessária uma reestruturação mais ampla por meio da recuperação judicial.
Passivo informado supera R$ 265 milhões no processo
Na petição, o Grupo Gennius atribui à causa o valor de R$ 265,2 milhões. Esse é também o montante total de dívida apresentado no processo, distribuído entre as classes de credores previstas na legislação: R$ 22,3 milhões na Classe I, R$ 241,7 milhões na Classe III e R$ 1,1 milhão na Classe IV.
Ao mesmo tempo, o documento menciona uma dívida bancária superior a R$ 300 milhões. A petição não apresenta, nesse trecho, uma explicação para a diferença entre esse valor e o passivo de R$ 265,2 milhões informado no processo.
Para o grupo, a combinação entre redução das receitas, pressão sobre as margens, aumento do custo do financiamento e dificuldades de caixa tornou insuficientes as negociações realizadas fora de um processo de recuperação. A empresa sustenta que a recuperação judicial é necessária para reorganizar o passivo e preservar a continuidade das operações.
Fonte: Times Brasil