A Eli Lilly informou na quinta-feira (22) que seu medicamento de nova geração atingiu um importante marco em um estudo clínico avançado com pacientes com obesidade, apresentando perdas significativas de peso em todas as doses testadas.
Os resultados aproximam a companhia do pedido de aprovação da injeção semanal chamada retatrutida, que possui um mecanismo de ação diferente das atuais injeções e comprimidos para perda de peso da própria Lilly e da concorrente Novo Nordisk. Os dados também sugerem que o medicamento pode ser mais eficaz do que as opções atualmente disponíveis.
A dose mais elevada da retatrutida permitiu que pacientes perdessem, em média, 28,3% do peso corporal — aproximadamente 31,9 kg — ao longo de 80 semanas, em comparação com uma perda de 2,2% no grupo placebo, considerando apenas os pacientes que permaneceram em tratamento.
Segundo a Lilly, cerca de 45% dos 2.500 participantes do estudo de fase 3 alcançaram perdas iguais ou superiores a 30% do peso corporal.
A dose mais alta também ajudou pacientes com índice de massa corporal (IMC) acima de 35 — grupo considerado de maior risco para doenças cardiovasculares e diabetes — a perderem, em média, 30,3% do peso ao longo de 104 semanas em uma extensão do estudo.
Embora o medicamento tenha apresentado taxas maiores de alguns efeitos colaterais gastrointestinais, como náusea e diarreia, especialmente nas doses mais elevadas, esses efeitos foram considerados consistentes com estudos anteriores envolvendo a retatrutida. Alguns analistas apontam que esses efeitos podem estar relacionados à rapidez e intensidade da perda de peso provocada pelo tratamento.
Uma dose menor, de 4 miligramas, testada pela empresa no estudo mais recente, também apresentou menor taxa de abandono do tratamento devido aos efeitos colaterais.
Dan Skovronsky, diretor científico e de produtos da Lilly, classificou a perda de 30% do peso corporal como um resultado “incrível”, ressaltando que esse patamar era anteriormente associado apenas à cirurgia bariátrica.
“Não vimos esse nível de perda de peso antes com esse tipo de medicamento”, afirmou Skovronsky em entrevista à CNBC.
Cerca de 65% dos pacientes que receberam a dose mais alta da retatrutida alcançaram IMC inferior a 30 após 80 semanas — índice abaixo do limite considerado obesidade.
Antes da divulgação dos resultados, alguns analistas esperavam números superiores aos registrados pelo Zepbound, medicamento de sucesso da Lilly para perda de peso, que apresenta reduções entre 20% e 22%.
Os dados representam o terceiro resultado positivo de fase avançada envolvendo a retatrutida. O medicamento já havia obtido sucesso em estudos sobre diabetes e em um ensaio com pacientes com obesidade e artrite no joelho.
A Lilly aposta fortemente na retatrutida como próximo grande pilar de seu portfólio para obesidade, ao lado do Zepbound e do comprimido recém-lançado Foundayo.
Analistas do TD Cowen estimaram, em relatório divulgado em janeiro, que a retatrutida poderá gerar US$ 3,8 bilhões em vendas até 2030.
O medicamento também é estratégico para os planos da Lilly de manter sua liderança sobre a Novo Nordisk no mercado de tratamentos para obesidade e diabetes, segmento que alguns analistas estimam poder atingir cerca de US$ 100 bilhões na próxima década.
Nova dose menor
Um dos destaques do estudo foi o teste de uma dose reduzida de 4 mg, que não havia sido utilizada em pesquisas anteriores. Essa dosagem permitiu uma perda média de 19% do peso corporal — cerca de 21,4 kg — ao longo de 80 semanas.
Skovronsky afirmou que a perda de peso observada nessa dose é semelhante à registrada com doses elevadas do Zepbound, mas com um “perfil de tolerabilidade excelente”, acima das expectativas da companhia.
A taxa de pacientes que interromperam o tratamento devido aos efeitos colaterais foi menor na dose de 4 mg do que no grupo placebo: cerca de 4% interromperam o uso do medicamento, contra quase 5% entre os que receberam placebo.
Na dose mais alta, a taxa de abandono chegou a 11,3%.
“Acredito que estamos fazendo história, tanto na dose mais alta quanto na mais baixa, pelo que conseguimos oferecer aos pacientes”, disse Skovronsky.
Ele acrescentou que nem todos os pacientes precisarão permanecer nas doses mais elevadas por períodos prolongados:
“Para alguns pacientes, perder 30% do peso pode ser mais do que procuram. Para outros, pode ser exatamente o necessário para recuperar a saúde.”
Perfil de segurança
Os dados de segurança foram considerados consistentes com outros medicamentos à base de GLP-1, com efeitos gastrointestinais entre os mais comuns.
Entre os pacientes que receberam a maior dose:
- 42% relataram náusea;
- 32% apresentaram diarreia;
- 26,1% tiveram constipação;
- mais de 13% registraram infecção do trato respiratório superior;
- mais de 12% relataram disestesia, uma sensação nervosa desagradável observada em estudos anteriores.
Analistas também observavam possíveis riscos cardíacos, como arritmias, devido ao mecanismo do medicamento, que atua em três hormônios intestinais — GLP-1, GIP e glucagon.
A Lilly, porém, afirmou que não identificou problemas cardíacos ou hepáticos no estudo.
Apelidada de “Triple G”, a retatrutida atua simultaneamente sobre GLP-1, GIP e glucagon, enquanto tratamentos atuais agem sobre apenas um ou dois desses mecanismos.
A tirzepatida, princípio ativo do Zepbound, atua sobre GLP-1 e GIP, enquanto a semaglutida, utilizada no Wegovy da Novo Nordisk, age apenas sobre GLP-1.
Segundo a companhia, a Lilly encerrou o primeiro trimestre com participação de 60,1% no mercado americano de medicamentos para obesidade e diabetes, enquanto a Novo Nordisk detinha 39,4%.
Enquanto a retatrutida se aproxima do mercado, a Novo Nordisk acelera seus esforços para reduzir a distância. Em março de 2025, a empresa anunciou um acordo de até US$ 2 bilhões pelos direitos de um medicamento experimental da farmacêutica chinesa United Laboratories International, potencial concorrente da retatrutida por utilizar uma abordagem semelhante baseada em três mecanismos de ação.
Fonte: Times Brasil