Disputa algodão x sintéticos deve voltar ao Congresso

A concorrência do algodão já não acontece apenas entre países produtores, custos de produção ou diferentes fornecedores da indústria têxtil. O avanço das fibras sintéticas colocou também a composição das roupas no centro de uma discussão que mistura competitividade, política industrial e impactos ambientais. Produtores brasileiros querem que esse debate ganhe espaço na formulação de políticas públicas.

Uma tentativa de levar a questão para a legislação ocorreu durante a tramitação da Medida Provisória nº 1.357/2026, conhecida como “MP das blusinhas”. A proposta não prosperou, mas a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) pretende manter a discussão sobre incentivos às fibras naturais e os impactos associados aos microplásticos.

A Emenda nº 52, apresentada pelo senador Carlos Fávaro, previa uma contribuição sobre a importação de produtos têxteis acabados que contivessem fibras sintéticas. Entre os objetivos apontados estavam reduzir a poluição por microplásticos e estimular produção, consumo e inovação envolvendo fibras naturais.

A emenda acabou não incorporada ao texto. Durante a tramitação, prevaleceu o entendimento de que a criação de uma nova contribuição extrapolava o objeto principal da medida provisória e envolvia questões que deveriam ser analisadas separadamente.

Isso, porém, não encerra a movimentação do setor. A Abrapa informa que pretende continuar produzindo informações e promovendo ações de conscientização relacionadas às fibras naturais e aos microplásticos. Uma das possibilidades é retomar o assunto por meio de um projeto de lei específico na próxima legislatura.

A entidade acompanhou a tramitação da MP no Congresso e afirma ter fornecido informações técnicas sobre a presença crescente das fibras sintéticas no mercado brasileiro. A estratégia coloca a sustentabilidade como mais um argumento na disputa por espaço entre diferentes matérias-primas da indústria têxtil.

“Vamos continuar contribuindo com informações e dialogando para que o Brasil possa construir políticas públicas que estimulem escolhas mais sustentáveis e ampliem o espaço do algodão”, afirma Gustavo Piccoli, presidente da Abrapa.

A próxima etapa, portanto, tende a ser mais ampla do que a discussão ocorrida dentro da MP. Se transformada em projeto de lei, a proposta poderá colocar frente a frente questões ambientais, interesses da cadeia brasileira do algodão, indústria têxtil e competitividade dos produtos importados — levando a disputa entre fibras naturais e sintéticas para além das prateleiras.

Fonte: Agro Revenda

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