O Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado no dia 5 de junho, chegou neste ano acompanhado de uma discussão importante para o mercado brasileiro. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) decidiu retirar a obrigatoriedade futura da divulgação dos relatórios financeiros de sustentabilidade para companhias abertas, mantendo a adoção dos padrões CBPS (Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade) e ISSB (International Sustainability Standards Board) apenas para as empresas que optarem por reportar voluntariamente.
Essa decisão da CVM gerou debates entre especialistas, investidores e lideranças empresariais. Para alguns, representou uma flexibilização necessária. Para outros, um retrocesso que pode enfraquecer a agenda ESG. Independentemente da interpretação, uma questão permanece inalterada: a demanda por transparência continua crescendo.
O ESG deixou de ser apenas uma agenda regulatória. Hoje, influencia decisões de investimento, acesso a crédito, relacionamento com clientes, atração e retenção de talentos, gestão de fornecedores e reputação corporativa. Nenhum desses públicos deixa de existir porque uma obrigação legal foi retirada.
Na prática, investidores, instituições financeiras, grandes compradores e consumidores continuam exigindo informações consistentes sobre riscos climáticos, governança, diversidade, gestão de impactos socioambientais e sustentabilidade dos negócios.
Por isso, a discussão mais relevante não é se as empresas serão obrigadas a reportar. A pergunta correta é: como elas pretendem demonstrar ao mercado que estão preparadas para os desafios de um ambiente econômico cada vez mais orientado por critérios ESG?
É nesse ponto que a comunicação assume um papel estratégico. Muitas organizações ainda enxergam relatórios de sustentabilidade como documentos técnicos destinados apenas a auditores, reguladores ou especialistas. Essa é uma visão ultrapassada. Um relatório, quando bem estruturado, é uma valiosa ferramenta de comunicação corporativa. Ele traduz riscos, compromissos, metas e resultados em informações capazes de fortalecer a confiança dos stakeholders.
Mais do que publicar centenas de páginas de indicadores, o que gera credibilidade é a coerência entre o discurso e a prática. Comunicar de forma clara, consistente e verificável o que a empresa faz, os desafios que enfrenta e os compromissos que assume é o que demonstra sua transparência.
Em um cenário marcado pelo aumento das iniciativas de combate ao greenwashing, comunicar bem tornou-se tão importante quanto executar bem. Empresas que não conseguem explicar suas estratégias, métricas e impactos tendem a perder espaço para organizações que demonstram maturidade na gestão e na comunicação de seus resultados.
Vale lembrar que o próprio surgimento das normas internacionais de divulgação de sustentabilidade teve como objetivo aumentar a transparência, a confiabilidade, a consistência e a comparabilidade das informações para investidores e demais públicos de interesse.
Por isso, a retirada da obrigatoriedade não deve ser interpretada como um enfraquecimento do ESG. Ela pode representar, na verdade, um teste de maturidade para as organizações. Aquelas que compreendem o valor estratégico da sustentabilidade provavelmente continuarão divulgando informações, não porque a regulação exige, mas porque o mercado valoriza.
*Carla Acquaviva é jornalista especializada em comunicação corporativa, gestão de crises e ESG.