Café solúvel brasileiro segue sob tarifa dos EUA apesar de alívio a outros produtos

A permanência da tarifa dos Estados Unidos sobre o café solúvel mantém pressão sobre o setor brasileiro, mesmo após o governo norte-americano retirar, em novembro do ano passado, a taxação sobre alguns produtos do Brasil. O segmento segue mobilizado para tentar reverter a medida, que afetou a competitividade no mercado americano – principal destino do produto.

Uma das frentes dessa estratégia é ampliar a visibilidade do tema junto a autoridades e à cadeia cafeeira dos EUA. O Brasil pretende participar, em março, do evento da National Coffee Association (NCA), entidade que reúne importadores e representantes da indústria cafeeira americana. Desde a imposição das tarifas, o setor brasileiro vem atuando em conjunto com a NCA para pressionar pela derrubada da taxa.

O movimento inclui ações em Washington. O presidente da NCA, Bill Murray, esteve recentemente na capital americana para reforçar o pleito junto a importadores, que também têm interesse no fim da tarifa. O argumento central é o grau de dependência dos EUA em relação ao produto brasileiro: em 2024, o Brasil respondeu por 38% das importações de café solúvel realizadas pelos Estados Unidos.

A avaliação do setor é que a reversão depende de uma decisão administrativa e de articulação política. A visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva aos Estados Unidos, prevista para março, é vista como uma janela para recolocar o assunto na agenda bilateral e destravar uma resolução formal.

No mercado, o impacto já aparece nos embarques. A Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (ABICS) afirma que a tarifa imposta pelo governo Trump reduziu “drasticamente” a competitividade do café solúvel brasileiro nos Estados Unidos.

No período de agosto a dezembro, meses em que a taxa esteve plenamente em vigor, os embarques para o país caíram cerca de 40% em relação ao mesmo intervalo de 2024. No acumulado do ano, a retração foi de 28%.

Apesar da perda de espaço no mercado americano, o setor registrou recorde de receita cambial e aumento do consumo interno em 2025, segundo a ABICS. Ainda assim, os EUA continuam relevantes na pauta do café brasileiro: em 2025, o país ficou na segunda posição entre os principais destinos do produto.

De acordo com o Cecafé, os norte-americanos importaram 5,381 milhões de sacas, uma queda de 34% na comparação com 2024.

Dados da NCA reforçam o peso econômico do café nos Estados Unidos. Segundo a entidade, 76% dos americanos consomem café. Além disso, para cada dólar gasto na importação do produto, são gerados US$ 43 na economia americana, a partir da agregação de valor via industrialização e serviços. Essa cadeia movimenta cerca de 2,2 milhões de empregos e representa 1,2% do PIB dos EUA.

Em paralelo ao impasse comercial, a oferta brasileira tende a crescer. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta que a produção de café do Brasil avance 17,1% em 2026, para 66,2 milhões de sacas de 60 quilos. Se confirmada, a colheita supera o recorde de 2020, quando o país produziu 63,1 milhões de sacas.

A Conab atribui o desempenho ao ciclo de bienalidade positiva, à entrada de novas áreas em produção, ao maior uso de tecnologias e insumos e a condições climáticas mais favoráveis. Na comparação com a safra de 2024 – também considerada de bienalidade positiva, quando foram colhidas 54,2 milhões de sacas, a estimativa para 2026 representa alta de 22,1%.

Por variedade, a produção de arábica deve atingir 44,1 milhões de sacas, com crescimento de 23,3% em relação ao ciclo anterior, sustentado pela maior área em produção, clima mais favorável e efeito da bienalidade. Já o conilon deve somar 22,1 milhões de sacas, avanço de 6,4% ante 2025, atribuído à expansão da área cultivada e ao clima favorável observado até o momento.

A bienalidade positiva é o período do ciclo produtivo em que a lavoura apresenta maior produtividade, superando a safra anterior. O fenômeno ocorre porque o cafeeiro alterna anos de alta carga de frutos com anos de menor produção, o que, na fase de alta, tende a resultar em colheitas mais abundantes e maior rentabilidade ao produtor.

Fonte: Times Brasil

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