Brasil-Índia: encontro entre governos e empresas mira expansão de negócios

Em um momento de profunda reorganização das cadeias produtivas globais, o Brasil e a Índia se mobilizam para fortalecer a integração econômica, que ganhou força na última década. Autoridades governamentais e líderes do setor privado dos dois países se reuniram na India-Brazil High-Level Business Reception, nesta quinta-feira (27), na Confederação Nacional da Indústria (CNI), para debater oportunidades de cooperação, investimentos e facilitação de comércio. Entre 2016 e 2025, a corrente de comércio bilateral saltou de US$ 5,6 bilhões para US$ 15,2 bilhões, segundo análise divulgada nesta quinta pela entidade.

O encontro de alto nível, realizado pela CNI em parceria com a Confederação da Indústria Indiana (CII) e com a ApexBrasil, contou com a participação do secretário de Comércio do Ministério do Comércio e Indústria da Índia, Shri Rajesh Agrawal; da secretária de Comércio Exterior do MDIC, Tatiana Prazeres; do embaixador da Índia no Brasil, Dinesh Bhatia; da diretora de Negócios da ApexBrasil, Maria Paula Velloso; e do presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (FIEG), André Rocha; entre outros representantes dos setores público e privado.

Representante da CNI no evento, o presidente da FIEG, André Rocha, ressaltou que a parceria com a Índia é essencial para a inserção internacional das empresas brasileiras e comemorou o salto na corrente de comércio bilateral, mas reforçou que ainda há espaço para crescer, já que foram mapeados quase 400 produtos com potencial de exportação para o país asiático.

“Acreditamos que o diálogo constante entre os governos e os empresários elevará as relações entre o Brasil e a Índia a um novo patamar. Com uma agenda bilateral orientada para resultados, poderemos ampliar o comércio, os investimentos e a cooperação tecnológica entre os nossos países”, afirmou Rocha, destacando que a CNI levará as pautas prioritárias à Cúpula dos BRICS, em setembro. Entre as demandas estão a modernização do Acordo de Preferência Tarifária Mercosul-Índia, a redução de barreiras tarifárias e a simplificação aduaneira.

Governos defendem diversificação da pauta exportadora
A secretária Tatiana Prazeres reconheceu que o atual acordo entre Mercosul e Índia ficou defasado em relação ao tamanho das duas economias. Atualmente o tratado abrange apenas 452 linhas tarifárias de um universo de 9 mil, o que evidencia a urgência de uma modernização.

Para a representante do MDIC, o desafio atual não é apenas aumentar o volume financeiro, mas diversificar a pauta. “O Brasil tem potencial para oferecer à Índia muito além das commodities tradicionais, como alimentos e energia. Devemos colaborar de forma mais estreita em setores estratégicos, como o aeroespacial, de soluções de engenharia, de equipamentos médicos e de tecnologias sustentáveis”, afirmou.

Do lado indiano, o embaixador da Índia no Brasil, Dinesh Bhatia, e o secretário de Comércio do país asiático, Shri Rajesh Agrawal, reforçaram a importância do diálogo bilateral para avançar em agendas relevantes e defenderam que a nova fase da parceria seja guiada por quatro pilares estruturais: investimento, inovação, integração e impacto.

Para o secretário Shri Rajesh, a complementaridade entre as duas economias abre portas para a criação de cadeias de suprimentos em parceria. Segundo ele, já existem setores onde essa sinergia é imediata: a união da excelência indiana em TI, a inteligência artificial e a farmacêutica (medicamentos genéricos e vacinas) com a força brasileira em agricultura, exploração de minerais críticos e transição energética (etanol, biogás e hidrogênio verde).

Setores privados falaram sobre avanços na relação
Representando o setor produtivo brasileiro, a Embraer e a WEG participaram do encontro e demonstraram que a integração produtiva entre as economias já está em andamento. A multinacional brasileira fabricante de aeronaves destacou a recente parceria com um conglomerado indiano e a abertura de um escritório local para transferência de tecnologia; enquanto a WEG, que produz motores no país asiático há 15 anos, usou seu exemplo para ressaltar que o sucesso da relação bilateral depende diretamente de investimentos a longo prazo.

Além dos representantes do setor empresarial brasileiro, participaram da reunião de alto nível a UPL Limited, multinacional indiana que figura entre as maiores companhias de soluções agrícolas do mundo, e a liderança da delegação indiana.

Análise da CNI aponta expansão do comércio e elenca prioridades do setor
Divulgada nesta quinta-feira (27), a análise “Indústria no mundo sobre a relação Brasil-Índia” mostra que as relações econômicas entre os dois países registraram um crescimento relevante na última década, com quase o triplo de corrente comercial mas, ainda assim, o crescimento é desequilibrado para o lado brasileiro. Enquanto as exportações do Brasil para a Índia cresceram 117,2% no período (atingindo US$ 6,9 bilhões em 2025), as importações do mercado indiano dispararam 236%, somando US$ 8,3 bilhões. Assim, o país mantém um déficit comercial com a Índia desde 2019.

Em relação ao Acordo Mercosul-Índia, a análise aponta que este é considerado limitado e insuficiente. Em 2025, 84,6% das exportações brasileiras para a Índia e 60,6% das importações vindas do parceiro asiático ocorreram fora do escopo do acordo comercial. Os dados indicam que o tratado tem sido mais utilizado pelas empresas indianas do que pelas brasileiras, segundo a análise da CNI.

Oportunidades comerciais
A indústria de transformação brasileira tem 377 oportunidades comerciais de exportação para a Índia, de acordo com a análise da CNI baseada em estatísticas da ApexBrasil. Os produtos foram identificados com base na competitividade brasileira no comércio internacional e na complementariedade com a pauta importadora da Índia. Ao todo, 19 setores da indústria de transformação apresentam oportunidades comerciais no mercado indiano.

Para superar entraves e destravar o potencial econômico entre os países, a CNI elaborou um conjunto de recomendações que são levadas aos encontros bilaterais. Além da modernização do acordo entre Mercosul e Índia, são prioridades da indústria:

  • Negociar um Acordo de Reconhecimento Mútuo entre os programas de Operador Econômico Autorizado, para simplificar procedimentos aduaneiros no comércio bilateral;
  • Revisar barreiras comerciais que afetam o comércio bilateral, incluindo tarifas elevadas e exigências regulatórias em setores industriais estratégicos;
  • Fortalecer iniciativas de Cooperação Regulatória Internacional (CRI) para reduzir entraves e ampliar o comércio em setores de interesse comum;
  • Ampliar a digitalização do comércio bilateral, com adoção de documentos eletrônicos e novas tecnologias nos fluxos aduaneiros para agilizar as transações comerciais;
  • Promover a cooperação entre iniciativas de política industrial do Brasil e da Índia, incluindo a Nova Indústria Brasil (NIB), o Programa Nacional de Desenvolvimento de Corredores Industriais da Índia (NICDP), a India Semiconductor Mission e a IndiaAI Mission;
  • Aprofundar a cooperação em transição energética, com foco em biocombustíveis, hidrogênio verde, energia solar e descarbonização produtiva;
  • Fomentar a cooperação em minerais críticos, incluindo mapeamento, exploração sustentável, beneficiamento, reciclagem e regulação;

Fonte: CNI

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