Algodão brasileiro amplia estratégia para ganhar espaço no mercado global

Setor busca ampliar o espaço da fibra no mercado mundial com promoção internacional, certificação, cooperação entre países produtores e investimentos em tecnologia no campo.

O setor brasileiro de algodão está ampliando sua estratégia para fortalecer a presença da fibra natural no mercado internacional. A atuação reúne promoção comercial, aproximação com a indústria, pesquisa, desenvolvimento de tecnologias têxteis e propostas de políticas públicas. Segundo Marcio Portocarrero, diretor-executivo da Associação Brasileira dos Produtores de algodão (Abrapa), a intenção é mostrar não apenas a qualidade da produção brasileira, mas também como o algodão é produzido e quais características podem aumentar sua competitividade.

Parte desse movimento ocorre por meio do Cotton Brazil, iniciativa voltada à promoção do algodão brasileiro nos principais mercados consumidores e à aproximação entre produtores, tradings, indústria e compradores internacionais. No mercado interno, o movimento Sou de Algodão trabalha a valorização da fibra junto à indústria da moda e aos consumidores. De acordo com Portocarrero, as duas frentes procuram destacar atributos como qualidade, escala, rastreabilidade e responsabilidade socioambiental.

A estratégia também inclui maior diálogo com outros grandes produtores de algodão. Brasil, Estados Unidos e Austrália, embora concorram comercialmente em determinados mercados, vêm discutindo ações conjuntas para ampliar o consumo de algodão e fortalecer as fibras naturais diante do crescimento das fibras sintéticas.

Segundo o diretor da Abrapa, essa aproximação não significa a formação de um bloco comercial nem a combinação de estratégias de venda. Cada país mantém seus próprios interesses comerciais. A cooperação está concentrada em iniciativas de promoção, comunicação, políticas públicas e fornecimento de informações sobre os impactos ambientais dos diferentes tipos de fibras ao longo de seu ciclo de vida. Um dos temas que ganhou espaço nesse debate é a presença de microplásticos. As fibras sintéticas são produzidas a partir de matérias-primas fósseis e podem liberar pequenas fibras plásticas durante a lavagem e o uso das roupas. Essa questão ampliou a discussão sobre sustentabilidade na moda, que passou a considerar também o que acontece com os materiais durante e depois de sua utilização.

Portocarrero ressalta, no entanto, que a intenção não é construir uma campanha de ataque às fibras sintéticas. A proposta defendida pela Abrapa é oferecer informações que permitam aos consumidores comparar os materiais considerando critérios ambientais, sociais, econômicos e de desempenho.

A certificação e a rastreabilidade aparecem como outros pontos centrais da estratégia. Rastreabilidade é a possibilidade de acompanhar a origem e o caminho percorrido por um produto ao longo da cadeia produtiva.

Segundo Portocarrero, a certificação não determina sozinha a decisão de compra do consumidor, mas permite comprovar informações relacionadas à sustentabilidade. No Brasil, o Algodão Brasileiro Responsável (ABR) funciona como protocolo nacional de certificação socioambiental e verifica critérios ambientais, sociais e econômicos por meio de auditorias. A Abrapa também mantém parceria com a Better Cotton, o que permite que produtores certificados pelo ABR tenham acesso ao licenciamento internacional.

Outra iniciativa citada é o SouABR, que utiliza a rastreabilidade para ligar a fibra à cadeia da moda. Por meio de um QR Code nas peças, o consumidor pode acessar informações sobre a origem do algodão. Em 2025, o programa chegou a 319.647 peças rastreáveis.

Além da comunicação e da certificação, a inovação no campo é apresentada como parte importante do futuro da cotonicultura brasileira. A biotecnologia — uso de recursos biológicos e genéticos no desenvolvimento de novas características das plantas — pode contribuir para aumentar a produtividade e melhorar a resistência a pragas, doenças e diferentes condições climáticas, além de favorecer a qualidade da fibra.

A estratégia, de acordo com Portocarrero, é aumentar a produção por hectare e utilizar melhor os recursos disponíveis, reduzindo a pressão pela abertura de novas áreas. Ele destaca, porém, que a genética não pode ser tratada como uma tecnologia isolada. O avanço depende também da combinação com manejo, agricultura digital, conservação de solo e água, controle fitossanitário e conhecimento técnico.

Esses temas estarão entre os debates do 15º Congresso Brasileiro do Algodão, previsto para ocorrer entre 22 e 24 de setembro, em Belo Horizonte. A programação, foi estruturada para aproximar pesquisa aplicada, tecnologia e os desafios enfrentados pela produção no campo.

O algodão responde atualmente por cerca de 21% do consumo mundial de fibras, enquanto as fibras sintéticas ocupam uma parcela maior. Para o representante da Abrapa, esse cenário indica que existe espaço para ampliar a participação da fibra natural no mercado. O Brasil, segundo Portocarrero, reúne escala de produção, tecnologia, qualidade e uma cadeia que vem avançando em certificação e rastreabilidade.

Leia a entrevista na íntegra:

Portal Agrolink: O algodão brasileiro passou a adotar uma comunicação mais coordenada para valorizar a fibra natural no mercado internacional. Quais ações concretas marcam essa nova estratégia de posicionamento global do setor?

Marcio Portocarrero: O Brasil entendeu que não basta produzir algodão de qualidade e de forma responsável; é preciso comunicar isso de maneira coordenada e ocupar o espaço que essa história merece no mercado internacional. Estamos trabalhando em uma estratégia que combina promoção comercial, relacionamento com a indústria, pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias têxteis e propostas de políticas públicas para promover a fibra natural produzida pelo Brasil.

Esse será, inclusive, um dos grandes debates do 15º Congresso Brasileiro do Algodão, que acontece de 22 a 24 de setembro, em Belo Horizonte. O tema central desta edição “Algodão brasileiro: fibra natural. Uma jornada com propósito, qualidade e transparência”, traduz justamente esse momento do setor: mostrar ao mundo não apenas o que produzimos, mas como produzimos e quais atributos tornam essa fibra competitiva.

Um exemplo é o Cotton Brazil, iniciativa criada para promover o algodão brasileiro nos principais mercados consumidores e aproximar produtores, tradings, indústria e compradores internacionais. Ao mesmo tempo, o movimento Sou de Algodão trabalha a valorização da fibra junto à indústria da moda e ao consumidor brasileiro. São frentes diferentes, mas que partem de uma mesma premissa: mostrar que o algodão brasileiro reúne qualidade, escala, rastreabilidade e responsabilidade socioambiental.

Também estamos ampliando o diálogo internacional com outros grandes países produtores. A ideia é construir uma narrativa global em defesa das fibras naturais, baseada em ciência, transparência e informação, e não em uma disputa simplesmente comercial.

Portal Agrolink: Produtores brasileiros têm formado alianças com países que também disputam espaço no comércio mundial de algodão. Como funciona, na prática, a cooperação entre Brasil, Estados Unidos e Austrália na promoção da fibra natural?

Marcio Portocarrero: Existe uma compreensão entre Brasil, Estados Unidos e Austrália de que, embora sejamos concorrentes comerciais em determinados mercados, temos um interesse comum muito maior: ampliar o consumo de algodão e fortalecer a posição das fibras naturais diante do crescimento das fibras sintéticas.

Essa aproximação já saiu do campo da intenção. Em encontros internacionais, como o ICA Trade Event, os três países passaram a discutir conjuntamente estratégias de promoção, comunicação e defesa institucional do algodão, inclusive temas relacionados a políticas públicas e à redução da poluição por microplásticos.

É importante deixar claro que não se trata de formar um bloco comercial ou combinar estratégias de venda. Cada país continua defendendo seus próprios interesses. A cooperação está principalmente em ampliar a demanda pela fibra natural, levar informação aos consumidores e governos e mostrar que a escolha entre fibras precisa considerar também os impactos ambientais ao longo do ciclo de vida dos produtos.

Para o Brasil, essa articulação é particularmente importante porque temos uma condição competitiva muito diferenciada: somos grandes produtores, temos escala, tecnologia, qualidade e uma cadeia produtiva capaz de rastrear e certificar a fibra.

Portal Agrolink: O avanço de tecidos sintéticos colocou o algodão em uma disputa que envolve preço, sustentabilidade e comportamento de consumo. Por que o debate sobre microplásticos ganhou tanta importância para a competitividade do algodão?

Marcio Portocarrero: Porque durante muito tempo a discussão sobre sustentabilidade na moda ficou concentrada na origem da matéria-prima, no uso de água ou na eficiência produtiva. Agora estamos ampliando essa conversa para o destino e o impacto das fibras durante e depois do uso.

As fibras sintéticas são derivadas de matérias-primas fósseis e podem liberar microfibras plásticas durante os processos de lavagem e uso das peças. Isso colocou os microplásticos no centro de uma discussão que envolve meio ambiente, economia, saúde, regulação e comportamento do consumidor.

Para o algodão, isso representa uma oportunidade, mas também uma responsabilidade. Não queremos construir uma narrativa simplesmente de ataque ao sintético. Queremos que o consumidor tenha informação para comparar materiais considerando critérios ambientais, sociais, econômicos e de desempenho.

O algodão precisa ganhar essa discussão pela evidência. E o Brasil tem uma história concreta para apresentar: uma produção em grande escala, certificação socioambiental, rastreabilidade e evolução contínua das práticas agrícolas.

Portal Agrolink: Selos socioambientais e sistemas de rastreabilidade são apresentados como provas da origem responsável da produção. Até que ponto essas certificações conseguem influenciar a escolha do consumidor comum?

Marcio Portocarrero: A certificação, sozinha, não faz o consumidor comprar uma roupa. Mas ela é fundamental para transformar uma afirmação de sustentabilidade em algo comprovável.

O consumidor está cada vez mais exposto a informações sobre sustentabilidade, mas também a um excesso de discursos e alegações que nem sempre consegue verificar. É justamente aí que entram a certificação e a rastreabilidade: elas dão credibilidade àquilo que a marca está dizendo.

No Brasil, temos o Algodão Brasileiro Responsável (ABR), protocolo nacional de certificação socioambiental que verifica critérios ambientais, sociais e econômicos e passa por auditorias. A Abrapa também trabalha em parceria com a Better Cotton, permitindo que produtores certificados pelo ABR tenham acesso ao licenciamento internacional.

E estamos avançando um passo além, levando essa informação até a peça de roupa. O SouABR, por exemplo, utiliza rastreabilidade para conectar a fibra à cadeia da moda e permite ao consumidor acessar informações sobre a origem do algodão por meio de QR Code. Em 2025, o programa chegou a 319.647 peças rastreáveis.

Ainda estamos construindo essa cultura de consumo. Mas acredito que, nos próximos anos, origem, rastreabilidade e transparência deixarão de ser diferenciais e passarão a ser requisitos básicos de mercado.

Portal Agrolink: Novas variedades buscam aumentar a produtividade e a resistência das lavouras sem ampliar irregularmente as áreas agrícolas. Qual será o papel da inovação biotecnológica na expansão sustentável da cotonicultura brasileira?

Marcio Portocarrero: A biotecnologia será uma das principais ferramentas para conciliar crescimento e sustentabilidade. O desafio do Brasil não é simplesmente produzir mais algodão; é produzir mais usando melhor os recursos que já temos.

Novas variedades podem contribuir para produtividade, resistência a pragas e doenças, adaptação a diferentes condições climáticas e qualidade da fibra. Quando conseguimos aumentar a produção por hectare, reduzimos a pressão para abrir novas áreas e melhoramos a eficiência econômica e ambiental da atividade.

Mas a inovação genética precisa estar integrada a um sistema mais amplo. Não existe uma tecnologia isolada capaz de resolver todos os desafios. Precisamos combinar genética, manejo, agricultura digital, conservação do solo e da água, controle fitossanitário e conhecimento técnico.

Esse é, inclusive, um dos pilares do Congresso Brasileiro do Algodão: aproximar ciência, inovação e decisão no campo. A programação do CBA 2026 foi estruturada justamente para conectar pesquisa aplicada, tecnologia e os desafios reais da produção.

O futuro da cotonicultura brasileira será cada vez mais tecnológico. E a grande questão é fazer com que essa tecnologia gere mais produtividade, mais qualidade e mais sustentabilidade simultaneamente.

Portal Agrolink: O setor aposta na união internacional e nos atributos ambientais para recuperar espaço diante das fibras derivadas do petróleo. Que posição o algodão natural pode ocupar no mercado global de moda nos próximos anos?

Marcio Portocarrero: Eu vejo uma oportunidade enorme. Hoje, o algodão representa cerca de 21% do consumo mundial de fibras, enquanto as fibras sintéticas ocupam uma parcela muito maior.

Portanto, não estamos falando de um mercado sem espaço para crescer; estamos falando de uma fibra natural que ainda tem muito território para conquistar.

O algodão pode voltar a ocupar uma posição estratégica na moda justamente porque reúne atributos que serão cada vez mais valorizados: é uma fibra natural, versátil, confortável, renovável e, quando produzida de maneira responsável, pode ser acompanhada desde a fazenda até a peça final.

O Brasil tem condições particularmente favoráveis para participar dessa transformação. Somos hoje um dos grandes fornecedores mundiais de algodão, temos escala produtiva, tecnologia, qualidade e uma cadeia que vem avançando fortemente em certificação e rastreabilidade.

Mas precisamos entender que essa disputa não será vencida apenas no campo. Será vencida também na comunicação, na ciência, na indústria e na relação com o consumidor.

É exatamente essa visão que queremos levar ao 15º Congresso Brasileiro do Algodão: o futuro da fibra natural não depende apenas de produzir mais. Depende de provar, com propósito, qualidade e transparência, por que o algodão brasileiro pode ser uma das matérias-primas mais relevantes para uma moda mais responsável.

Fonte: Agrolink

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